Muito mais do que suas obras como primeiro
governador do antigo Estado da Guanabara, muito
mais do que seus textos ou discursos como
proprietário de jornal e político, muito mais
do que todas as suas realizações pessoais e
profissionais, o jornalista Carlos Lacerda passou
à história brasileira como o pivô do atentado
que provocou o suicídio do presidente Getúlio
Vargas, na manhã do dia 24 de agosto de 1954.
Com a política no sangue (seu pai, Maurício
Paiva de Lacerda, foi deputado federal; seu avô
por parte de pai, Sebastião Eurico Gonçalves de
Lacerda, foi ministro da Indústria, Viação e
Obras Públicas no governo do presidente Prudente
de Morais), Carlos Frederico Werneck de Lacerda,
embora registrado em Vassouras (RJ), nasceu no
Rio de Janeiro, na época Distrito Federal, em 30
de abril de 1914, coincidentemente, no mesmo dia
e ano em que viria ao mundo o cantor e compositor
baiano Dorival Caymmi.
Iniciou a sua carreira profissional em 1929,
escrevendo alguns artigos para o "Diário de
Notícias", em uma seção dirigida por uma
mulher que marcaria época na literatura
brasileira -Cecília Meireles. Três anos mais
tarde, durante o governo provisório comandado
por Getúlio Vargas, ingressou na Faculdade de
Direito da Universidade do Rio de Janeiro, mas
não chegou a concluir o curso. Em seu livro
"Depoimento", Lacerda justifica a
decisão. "A advocacia era uma profissão
muito estranha, porque os casos que me
interessavam não davam dinheiro, e os casos que
davam dinheiro não me interessavam".
A intensa atividade política que marcaria a vida
de Carlos Lacerda começou justamente quando
estudava Direito. Neste período, aproximou-se
dos ideais comunistas e da Ação Libertadora
Nacional (ALN). Em 39, rompeu com essa ideologia
e passou a escrever artigos anticomunistas. Na
década de 40, mais precisamente em 1945, Carlos
Lacerda assina a sua ficha de filiação à UDN
(União Democrática Nacional), tornando-se
vereador pelo Distrito Federal, dois anos mais
tarde.
Logo que assumiu o mandato, começou a fazer
campanha em favor da completa autonomia do
Distrito Federal, defendendo a eleição direta
para prefeito -o cargo era uma prerrogativa do
presidente da República, que nomeava o
administrador. Ainda em 47, renuncia ao mandato
de vereador, inconformado com a decisão do
Senado, que retirou da Câmara Municipal o poder
de examinar os vetos do prefeito.
Em 49, Carlos Lacerda dá uma grande guinada em
sua vida, ao fundar o jornal "Tribuna da
Imprensa", diário que foi o principal
porta-voz da oposição durante o segundo governo
do presidente Getúlio Vargas (1951/54). Já
casado, o jornalista liderou uma campanha contra
o jornal "Última Hora", de Samuel
Weiner, acusando-o de ter se beneficiado de um
empréstimo fraudulento do Banco do Brasil para
colocar o seu maquinário em funcionamento.
A partir daí, os ataques diários ao governo do
presidente Getúlio Vargas passaram a ser uma
rotina na "Tribuna da Imprensa".
Finalmente, no dia 5 de agosto de 1954, aconteceu
o episódio que marcaria definitivamente Carlos
Lacerda na história do Brasil e levaria o
presidente Vargas à morte, provocando uma crise
sem precedentes na vida republicana do país.
Atentado
Ao voltar de um comício realizado no Colégio
São José, no Rio, o jornalista foi atingido por
um tiro quando chegava à sua casa, localizada à
rua Toneleros. O atentado, que deixou Lacerda
ferido no pé, provocou a morte do major-aviador
Rubens Florentino Vaz, que dava proteção ao
jornalista. No mesmo dia, ainda no Hospital
Miguel Couto, para onde foi levado após ser
baleado, Carlos Lacerda responsabilizou
"elementos da alta esfera
governamental" pelo crime.
Uma semana depois, Lacerda publicou um editorial
na "Tribuna da Imprensa", pedindo a
imediata renúncia do presidente Vargas.
Isolado politicamente e percebendo que
integrantes de sua guarda pessoal estavam
envolvidos no atentado, Getúlio Vargas
suicidou-se com um tiro no peito. A confirmação
da morte do político gaúcho provocou um grande
quebra-quebra em vários jornais do Rio e Carlos
Lacerda foi obrigado a permanecer escondido por
quatro dias.
Em setembro de 54, um mês após a morte de
Vargas, o jornalista pediu o adiamento das
eleições, marcadas para o dia 3 de outubro.
Carlos Lacerda temia que a comoção nacional
levasse o partido do presidente (PTB) a dominar o
cenário nacional. Mesmo sem alcançar sucesso em
sua empreitada, Lacerda foi o deputado federal
mais votado em seu partido. No dia 5 de dezembro
de 60, acontece o auge de sua carreira política
-o jornalista foi empossado como primeiro
governador da Guanabara e inicia uma ampla
reforma administrativa no Estado.
No ano seguinte, as divergências entre o
governador e o presidente Jânio Quadros, que
ajudou a eleger, tornam-se explícitas. Em
outubro de 61, já com Jânio Quadros fora do
poder, o jornalista vendeu a "Tribuna da
Imprensa" para Manuel Francisco do
Nascimento Brito, alegando dificuldades
financeiras.
Após o golpe militar de 64, Carlos Lacerda
viajou para a Europa e para os Estados Unidos
para defender os ideais do novo regime, mas o seu
apoio do governo do presidente Castelo Branco
durou pouco. Em um artigo publicado na revista
"Manchete", o jornalista informou que
estava interessado em disputar a Presidência da
República. "Entendo que a Revolução ou
não tem programa, ou tem o meu programa, que
não é só meu, porque é nosso, do povo",
escreveu. No entanto, a suspensão das eleições
diretas para a escolha do presidente da
República colocou um ponto final nas pretensões
de Carlos Lacerda.
Com a instituição do Ato Institucional número
5 (AI-5), em 13 de dezembro de 68, o jornalista
foi preso e teve os seus direitos políticos
cassados por dez anos. Em seguida, voltou a
trabalhar por pouco tempo como jornalista, antes
de dedicar-se às atividades editoriais na
"Nova Fronteira" e na "Nova
Aguillar", empresas de sua propriedade.
Carlos Lacerda, morto no dia 21 de maio de 1977,
também trabalhou como tradutor e deixou uma obra
que ajuda a compreender a sua participação na
história política do Brasil _ "O Caminho
da Liberdade" (57), "O Poder das
Idéias" (63), "Brasil entre a Verdade
e a Mentira" (65, "Paixão e
Ciúme" (66), "Crítica e
Autocrítica" (66), "A Casa do meu
avô; pensamento, palavras e obras" (77),
"Depoimento" (78) e "Discursos
Parlamentares" (82), estes dois últimos
editados após a sua morte.
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