Durante muito tempo, Clark Gable foi
encarado por boa parte dos críticos
apenas como um ator de sucesso somente
junto das mulheres. Embora esse êxito
peculiar seja também inegável, o fato
é que, com o passar dos anos, muitos
constataram que esse americano nascido na
pequena cidade de Cadiz (o mesmo nome da
cidade espanhola) em Ohio, atuava diante
das câmeras com uma incrível e
maliciosa espontaneidade que o tornou
imune ao desgaste natural geralmente
acarretado pelo passar dos anos. Quem
sabe, essa sua maneira de ser venha da
sua origem humilde e das inúmeras
dificuldades que enfrentou antes de
conhecer a fama. William Clark Gable
nasceu em 1 de fevereiro de 1901 no seio
de uma família pobre. A mãe morreu
quando ele tinha sete meses. Já na
adolescência, tinha de estudar e
trabalhar. Foi aos 16 anos que Clark
largou a escola e seu trabalho de
operário em uma fábrica para tentar ser
ator. Essa decisão surgiu quando ele viu
no teatro a peça ''O Nascimento do
Paraíso''. Lá foi em busca de seu
''paraíso'' e em pouco tempo conseguiu
se engajar em algumas companhias, mas
fazendo trabalhos mais braçais como
consertar gravatas. O charme de Clark com
as mulheres já existia na juventude.
Tanto que em 1924 casou-se com uma mulher
20 anos mais velha, Josephine Dillon, que
acabou sendo a sua primeira agente.
Josephine o levou à Hollywood. Na
ocasião o moço só conseguiu fazer
pontas em filmes como ''A Viúva
Alegre''. E apesar que algumas nem foram
creditadas, nesse ano deu início à uma
filmografia que atingiu cerca de 90
títulos até a sua morte. Ele voltou a
fazer teatro com o novo amigo, o então
respeitado Lionel Barrymore. Foi esse
ator ''medalhão'' (era irmão de Ethel e
John Barrymore) que, junto com a
esforçada Josephine, conseguiu
encaminhá-lo para a Metro, então sob a
direção de Irving Thalberg. Naquele
estúdio em 1930 e no filme ''O Deserto
Pintado'' começou e aconteceu a maior
parte da carreira e do sucesso de Clark.
Naquela ocasião acabou também o
casamento com Josephine. Justo ela que,
dizem, tinha sido a responsável por
desenvolver naquele rapaz alto (1m90),
musculoso e com grandes orelhas (depois
corrigidas), as suas aptidões
artísticas. A fama de interesseiro se
ajustou a Clark porque ele, em 19 de
junho de 1931 (um ano depois do
divórcio), casou-se com a socialite Rhea
Langham. Dizem que, mesmo casado com
aquela rica mulher de Nova York, ele
mantinha um caso com Joan Crawford, de
quem havia sido coadjuvante em ''Dance,
Fools, Dance'', de Harry Beaumont, um dos
primeiros musicais do cinema sonoro. Mas
ela não foi a única atriz a tê-lo na
cama durante o segundo de seus cinco
matrimônios. Dizem que até Norma
Shearer, esposa do todo poderoso
Thalberg, também usufruiu de suas
aptidões sexuais. O fato é que, por
essa ou outra razão, o sucesso
prosseguia. No mesmo ano que contracenou
com a Crawford, Clark era alçado a ator
principal de alguns filmes da Metro. Um
deles foi ''Susan Lennox'', com Greta
Garbo. Outro, em 1931, foi ''Red Dust'',
com a sexy Jean Harlow. Mas por ter
ficado contrariado com a sua recusa em
fazer um determinado roteiro, o estúdio
que o alçou a glória decidiu puní-lo
emprestando-o para a Columbia em 1934. O
tiro saiu pela culatra. O diretor Frank
Capra, então naquela produtora, resolveu
usá-lo como o jornalista que foge com
uma milionária (Claudette Colbert) em
''Aconteceu Naquela Noite''. O filme foi
um sucesso, a primeira comédia premiada
com um Oscar. E Gable, assim como
Claudette, ganhou o troféu de Melhor
Ator. Clark seria finalista novamente
para o Oscar em duas outras ocasiões.
Uma em 1938 por ''O Grande Motim'' e a
outra em 1939 por ''... E o Vento
Levou''. Apesar de ser apontado como
favorito (e de fazer menção de
levantar-se quando anunciavam o vencedor
nessa categoria), ele perdeu para o
inglês Robert Donat por ''Adeus, Mr.
Chips''. Mas hoje existe um certo
consenso que ''...E o Vento Levou'' foi o
maior momento cinematográfico da
carreira de Clark. Ele foi escolhido para
ser Rhett Butler devido as inúmeras
cartas que mulheres enviaram aos
estúdios da Metro ao ser anunciada a
filmagem desse best seller. E como Rhett,
ele foi a própria imagem da sedução.
Misturando uma certa cafajestice com
determinação, confirmou-se como o maior
galã do cinema na ocasião. O ator
também estava de bem com a vida. ''A
única razão porque o público vem me
ver é porque eu sei que a vida é grande
e eles (os espectadores) sabem que eu sei
isso'', disse Gable na ocasião. Desse
estado de espírito era o seu grande
momento na vida pessoal. Ele estava
apaixonado por Carole Lombard, a bela e
alegre atriz que havia conhecido em 1932.
O amor cresceu posteriormente e em 29 de
março de 1939, 25 dias depois de ter o
divórcio de Rhea, casou-se com ela. Essa
felicidade durou pouco. Em 16 de janeiro
de 1942, Carole morreu na queda do avião
que a trazia de volta para casa, após
ter se apresentado para soldados que iam
para guerra. A fatalidade arrasou com
Clark. Recusando-se a trabalhar, ele se
alistou na força aérea e foi para o
front de batalha, participando ativamente
do bombardeio de importantes pontos
nazistas. Por isso, foi condecorado no
seu retorno aos Estados Unidos. De volta
ao cinema, Clark passou a atuar em filmes
de ação e com certo tom patrioteiro.
Caso de ''Äventura'' (Adventure),
dirigido em 1945 por seu amigo Victor
Fleming. Só em dezembro de 1949, em meio
de uma rotina não muito empenhada nos
estúdios, voltou a se casar. Desta vez
com lady Silvia Ashley, ex-mulher de
Douglas Fairbanks. Mas a relação foi
curta, terminou em abril de 1952. No ano
seguinte, fez um de seus maiores êxitos
da fase madura, ''Mogambo'', de John
Ford, quando (dizem) chegou a ter um
romance com uma das atrizes, a bela Grace
Kelly. Em 11 de julho de 1955 Clark
aparentava felicidade ao casar-se com Kay
Spreckles. Amável e sem glamour, ela
parecia ter dado paz e estímulo ao
marido que, naquela década, trabalhou
ativamente ao lado de estrelas como
Yvonne deCarlo (''Meu Destino Foi
Pecar'') Eleanor Parker (''Esse Homem é
Meu'') e a italiana Sophia Loren na
comédia ''Começou em Napoles'', seu
penúltimo filme. Em 1960 foi contratado
para atuar com Marilyn Monroe em ''Os
Desajustados'', de John Huston, que tinha
roteiro original do dramaturgo Arthur
Miller, marido de Marilyn. Seu salário
foi alto: 750 mil dólares, mais 58 mil
para cada semana de acréscimo. E as
filmagens, tumultuadas pelos atrasos e
caprichos de Marilyn, foram além do
prazo. Mas Clark até que estava feliz no
meio das confusões, pois ficou sabendo
que iria ser pai pela primeira vez na
vida. Kay estava grávida. Porém, o
destino foi novamente cruel. Em 16 de
novembro de 1960, dois meses depois de
terminar as filmagens de ''Os
Desajustados'', Clark sofreu um
fulminante ataque de coração. Ele foi
enterrado ao lado de Carole Lombard em
Forest Lawn Cemetery. Em 20 de março do
ano seguinte nasceu John Clark Gable, seu
filho. Ele tentou seguir a carreira
artística e chegou a fazer dois filmes
para a TV. Em vão. Mesmo que não
houvesse a herança genética, nem ele e
nem ninguém conseguiria superar ''the
King''. Clark Gable, o rei, até hoje,
100 anos depois de seu nascimento, é um
ator muito especial.
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