O nome verdadeiro de Dercy Gonçalves é Dolores
Gonçalves. Nascida em Santa Maria Madalena,
estado do Rio, a 23 de junho de 1907. A infância
foi pobre, mas linda, segundo ela.
Não conheceu a mãe, mas teve uma preta, a quem
chamava de minha nega, que lhe deu
todo o carinho. Teve vários irmãos. E não quis
saber de ir muito à escola, embora lembra-se de
algum colégio que frequentou, mas nunca foi boa
aluna. Tudo o que sabe aprendeu com a vida.
Não vi a banda passar. Acompanhei a
banda. Procurou sempre observar, aprender,
sobreviver. A arte veio ao seu encontro. E,
embora os parentes dissessem que aquilo era
prostituição, Dercy foi pro mundo,
feliz, não vendo nada de errado no que fazia.
Improvisei sempre a vida, diz . A
primeira coisa que fez em teatro foi cantar.
Aliás, cantava na missa, na procissão, nas
festas. Era alegre demais, com tudo o que via.
Não tinha vergonha de mostrar sua graciosidade.
Gostava também de imitar atrizes da época, como
Theda Bara, Pola Neri. Essas
atrizes-prostitutas da época, eram
seus ídolos. E, como elas, gostava de se pintar.
Mas improvisava tudo, com carvão, com papel
crepom colorido. Assim realçava os olhos e a
boca. O pó de arroz era alvaiade. Não tinha
dinheiro para comprar nada. Era inteiramente
inocente, mas era falada. E, mocinha
ainda, ficou noiva. Sem nunca ter dado um beijo
na boca. Mas assim mesmo a perseguiam, por causa
das pinturas. E foi após uma briga com o pai,
que desfez o noivado e engajou-se na Companhia de
Maria Castro, de teatro, cantando. Ainda se
lembra a música Nely, que cantou
nessa época. Foi aí que conheceu Paschoal, a
quem não amava, mas respeitava e com quem ficou
casada, mas como irmão. Dai fez
dueto: Os Paschoalinos, e viajaram
por todas as cidades, como Jaboticabal, Rio
Preto, Belo Horizonte. Fez toda a Leopoldina,
Diamantina, até que chegou no Rio de Janeiro.
Era o ano de 1932. Já havia trabalhado com
artistas importantes, como Duque Miranda, João
Lino. Seu grande sucesso foi em Casa de
Caboclo, e passou a ter o nome nas portas
dos teatros. Cantou A Serra da
Mantiqueira, com muito sucesso. A garota
Dercy nem percebia seu próprio valor. Tudo o que
queria era cantar, era dançar, era ser feliz,
era viver. Trabalhou com Jardel Gercoles, e virou
estrela. Esteve em São Paulo, onde
fez sucesso muito grande. Lembra-se de ter feito
a peça Paradise, que considerou
muito boa. Fez Principe Maluco.
Trabalhou com o pai do Walter Pinto, e com ele
também, em sua Companhia de Variedades. Chegou a
dirigir espetáculos. Era então uma verdadeira
profissional, e todos gostavam de estar na
companhia e nas peças dela, que inevitavelmente,
faziam sucesso. Trabalhou também com Chianca de
Garcia. Quando perguntada sobre os nomes das
peças que fez, responde: Isso é querer
muito, minha filha. Mesmo porque eu sempre mudei
o nome das peças. Eu não tenho que dar
satisfação à ninguëm. Sou eu que
banco os meus espetáculos, e eu que
escrevo as minhas peças. É tudo feito às
minhas custas. Na verdade, Dercy
Gonçalves, foi aos poucos, se especializando em
fazer espetáculos, que são verdadeiros
shows, onde ela praticamente
improvisa tudo o que faz. E assim atuou no Teatro
Carlos Gomes, no Teatro João Caetano, na Praça
Tiradentes, isso no Rio de Janeiro, e em todos os
teatros do Brasil. Fez sucesso com a peça
Uma Certa Viúva, Violeta
Mirante, de Abilio Pereira de Almeida,
Um marido, pelo amor de Deus, A
Dama das Camélias. E a TV a descobriu.
Esteve em todas, mas fez muita amizade na Globo,
onde ficou por muitos anos. Ali sempre foi
considerada rainha. Um de seus
últimos trabalhos foi O Jogo da
Velha, no programa do Faustão,
onde ficou por cinco anos. Seus maiores sucessos,
porém, foram: Dercy de Verdade,
Dercy Espetacular. Foram grandes
programas! Assim como teve grandes shows em
teatro. Foi destaque de escola de samba e nunca
esteve ausente da mídia. Mas o que mais espanta
em Dercy, é sua figura humana, sua fibra, sua
coragem, sua beleza. Mas eu não sou
bonita. Nunca fui bonita. Aliás queria ter sido
mais bonita. Diz ela. Sem saber que sua
beleza vem de dentro, por ser uma batalhadora,
uma desafiadora, uma criatura fora de
série, um ser ímpar, alguém
sem igual, por seu caráter, que sempre enfrentou
os desafios, e os enfrenta ainda, apesar de estar
hoje (1998) com 92 anos de idade. Tem uma filha e
uma neta. E as ama muito, embora more só e
prefira assim. Dercy Gonçalves é um ser raro.
Estar com ela, entrevistá-la, é uma grande
honra. Estar com ela é perceber que a vida
vale a pena ser vivida. E bem vivida, como
ela diz.
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