Como explicar o talento musical de uma pianista
que começou a tocar aos 8 anos já com absoluto
domínio da técnica, com poesia e precisão?
Guiomar Novaes, a maior pianista brasileira e uma
das maiores celebridades nos meios musicais da
Europa e dos Estados Unidos no início do século
XX, transfigurava-se de tal modo ao piano,
tocando de forma arrebatadora, como se estivesse
improvisando, que diziam parecer estar em transe
ou ser a encarnação de um grande artista. Para
alguns, sua genialidade era um mistério
psicológico, um milagre musical. "Toca como
se algum espírito estivesse soprando em seu
ouvido os segredos mais profundos de toda a
harmonia", escreveu um crítico do Times,
dos Estados Unidos. Nascida no interior de São
Paulo, Guiomar cresceu em meio a uma família de
19 crianças e num ambiente religioso. Menina,
impulsionada pelo som do piano tocado pelas
irmãs mais velhas, esperava que elas deixassem o
teclado para sentar-se ao banquinho e tocar até
"os dedos doerem". Antes de aprender a
ler e a escrever, dominou as notas. Seu primeiro
professor foi o paulista Eugênio Nogueira e,
mais tarde, o italiano Luigi Chiaffarelli, com
quem realizou suas primeiras apresentações, os
saraus musicais, em São Paulo e, depois, no Rio
de Janeiro. Em 1909, aos 15 anos, partiu para a
Europa para tentar uma vaga no Conservatório de
Música de Paris. Avaliada por um júri formado
por célebres músicos, como Claude Debussy,
Moszckowski, Widor e Lazare-Lévy, foi apontada
como a candidata com os melhores dotes
artísticos e obteve a vaga. No conservatório,
estudou com o húngaro Isidore Phillip e
conquistou o primeiro prêmio ao concluir as
provas finais, em 1911, com a execução da
Balada, de Chopin. Poucos meses depois de
graduar-se, projetou-se no mundo musical europeu.
De Paris, realizou concertos em Londres, Itália,
Suíça e Alemanha. Com o advento da Primeira
Guerra Mundial, mudou-se para os Estados Unidos,
onde, a partir de 1915, ascendeu
profissionalmente numa trajetória rara. Desde o
começo uma revelação, permaneceu 62 anos
brilhando nos palcos. Foi especialmente genial ao
interpretar Schumann e Chopin. Além de ter sido
grande divulgadora da obra de Heitor Villa-Lobos
no exterior.
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