A Bailarina do Povo. Em 21 de fevereiro
de 1917 nascia Dora Vivacqua em Cachoeiro
do Itapemirim, no estado do Espírito
Santo. Era madrugada de uma segunda-feira
de carnaval. Dora foi a décima quinta
filha de Etelvina e Antônio Vivacqua.
Musa de Carlos Drummond de Andrade. No
início dos anos 20, a família Vivacqua
mudou-se para Belo Horizonte, capital do
estado mineiro. Dora, ao conhecer o
serpentário do Instituto Ezequiel Dias,
fez dele o seu passeio preferido. Geniosa
e não aceitava ordens nem opiniões
sobre sua vida e se sentia sufocada na
pequena Cachoeiro. Nem mesmo Vitória lhe
era conveniente. Queria ir para o Rio de
Janeiro. Abominava o uso do sutiã.
Desfilava pela praia de Marataízes de
calcinha e bustiê improvisado com
lenços, quando o biquini ainda estava
longe de constar do vocabulário
nacional. Com a morte por assassinato de
seu pai Antônio em agosto de 1929, Dora
para o Rio de Janeiro, então capital
federal, sob a tutela de seu irmão
Attilio. Em janeiro de 1936, aos 19 anos
de idade, Dora vive um romance com José
Mariano Carneiro da Cunha Neto, que
pertencia a uma das mais importantes
família do Rio. Attilio, intolerante com
o relacionamento da irmã, mandou-a de
volta para Minas onde sua irmã Angélica
flagra, em sua própria cama, seu marido
Carlos, um dos maiores empreiteiros do
Brasil à época, praticando sexo com
Dora. A maior parte da família preferiu
acreditar nas mentiras de Carlos e tomou
Dora como esquizofrênica. Isso lhe
custou dois meses de internação no
Hospital Psiquiátrico Raul Soares, em
Belo Horizonte, e dez quilos a menos. Um
dos irmãos de Dora, Achilles, enfrentou
Carlos e o proibiu de voltar à casa dos
Vivacqua. Preocupado com o estado de
Dora, quando ela saiu do hospital,
Achilles a convenceu a passar uma
temporada na fazenda de Archilau, outro
irmão, quatorze anos mais velho que ela.
A moça passou a desfrutar de alguma
liberdade, até que apareceu como
"Eva", com três folhas de
parreira presas nos seios e no púbis e
duas cobras-cipós como braceletes, para
o filho do administrador da fazenda,
responsável em acompanhá-la onde quer
que fosse. Quando repreendida por
Archilau, jogou-lhe um vaso de cristal na
testa. Toda essa rebeldia causou uma
segunda internação, desta vez na Casa
de Saúde Dr. Eiras, famosa clínica
psiquiátrica do Rio de Janeiro. Achilles
interviu mais uma vez e a irmã
Mariquinhas resgatou Dora, levando-a para
morar com ela em Cachoeiro. Por pouco
tempo. Dora fugiu para o Rio. Em 1937,
novamente no Rio de Janeiro, a moça
retomou seu romance com Mariano, mas não
aceitou oficializar a relação.
Aventurou-se como pára-quedista, porém
foi logo proibida por Mariano.
Apaixonada, viu na proibição uma
demonstração de amor. As desavenças
tornaram-se violentas, quando decidiu
fazer um curso de dança na academia Eros
Volúsia. Em 1944, tornou-se a atração
da noite no palco do picadeiro do Circo
Pavilhão Azul, sendo anunciada como
"a única, a exótica, a mais sexy e
corajosa bailarina das Américas: Luz
Divina e suas incríveis serpentes!"
Depois de dois anos, dezessete dias e
quase uma centena de mordeduras, fazia
seu espetáculo na companhia do casal de
jibóias Cornélio e Castorina. No final
da Segunda Guerra, havia treinamentos de
blackout, que deixavam Copacabana às
escuras, "preparando-se para
imaginários ataques dos inimigos" e
Dora anotava suas experiências pessoais
em um diário. Em 1947, por sugestão do
palhaço Cascudo, mudou o nome para Luz
del Fuego, alcunha de um batom argentino
recém-lançado no mercado. Conforme
Cascudo, "nome estrangeirado atraía
público". A imagem do
"fogo" representava bem a nova
opção de vida de Dora, já que antes
ela era "água viva"
(Vivacqua). Luz já havia salvado vários
circos da falência com seus
espetáculos, quando foi contratada pela
primeira vez pelo casal Juan Daniel e
Mary Daniel, donos do Follies, um pequeno
teatro em Copacabana. Suas falas, que ela
nunca decorava, ficaram sob
responsabilidade de um jovem membro da
família que, aos doze anos, ingressava
na carreira artística: Daniel Filho. O
espetáculo "Mulher de Todo
Mundo" fez muito sucesso. As notas
na imprensa começaram a aparecer e as
atividades de Luz causavam incômodo à
família. Attilio havia sido eleito
senador e ter uma irmã dançarina era um
prato cheio para os adversários. Não
bastasse isso, Luz resolveu publicar seu
diário com o título de "Trágico
Black-Out". Eram trechos
comprometedores, como a sedução pelo
cunhado, e fatos que aludiam a uma
prostituição assumida. O senador
conseguiu comprar mais da metade da
edição, (mil exemplares) e colocar fogo
nos volumes. Na orelha da capa do livro,
Luz anunciava um segundo com o sugestivo
nome de Rendez-vous das Serpentes. Em
1950, começou a colocar em prática as
idéias naturalistas de vegetarianismo e
nudismo apresentados em Trágico
Black-Out. "Um nudista é uma pessoa
que acredita que a indumentária não é
necessária à moralidade do corpo
humano. Não concebe que o corpo humano
tenha partes indecentes que se precisem
esconder". Luz começou a tornar
públicas suas idéias em um país onde
ainda não se usava maiô de duas peças
nas praias e o culto ao corpo se resumia
aos concursos de Miss Brasil. Reunia um
pequeno grupo de amigas na praia de
Joatinga, próximo a sua casa na avenida
Niemeyer. Era uma praia deserta devido ao
difícil acesso. Acompanhavam Luz
Domingos Risseto, Miss Gilda e Miss Lana
(estes dois, transformistas amigos de
Luz), alguns cães e Cornélio e
Castorina, "sua maior garantia
contra os abelhudos". A polícia foi
até lá e levou todos para a delegacia.
Luz percebeu então que o nudismo lhe
asseguraria a evidência. Publicou o
livro "A Verdade Nua". Nele
lançava as bases de sua filosofia
naturalista. A família não precisou se
preocupar desta vez, porque as próprias
autoridades deram sumiço no livro. A
segunda edição foi vendida por
reembolso postal. O dinheiro serviria
para arrendar uma ilha na qual instalaria
a sede de seu clube naturalista. Assim,
na primeira metade dos anos 50, Luz del
Fuego causava furor por onde passava. Do
Rio de Janeiro, passou a ser conhecida em
todo o país. Seus shows eram garantia de
bilheteria certa e levavam todos ao
delírio. Era o tempo das vedetes: Mara
Rúbia, Virgínia Lane, Dercy Gonçalves
e Elvira Pagã, sua maior rival. Luz
chegou a ser capa da revista Life, nos
Estados Unidos. Doava rendas de seus
espetáculos para instituições
beneficentes,fazendo leilões de si
mesma. Foi multada e detida para
interrogatórios várias vezes, depois
alardeava em praça pública que o
delegado, juiz ou prefeito, era muito
duvidoso para seu gosto, porque
"homem que é homem aprecia a beleza
do corpo feminino". E era detida
outra vez, por desacato à autoridade.
Seus irmãos se projetavam na política,
no comércio e na área artística. O
parentesco era inoportuno e eles a
perseguiam cada vez mais. Attilio
comprava edições inteiras de revistas
nas quais Luz aparecia e perdeu as
eleições para governador no Espírito
Santo (o adversário espalhara cabos
eleitorais fantasiados de padres que
andavam pelo interior do estado
apregoando que o senador Vivacqua era
irmão de uma mulher demoníaca). Luz
tirava proveito da situação e, quando
necessitava de dinheiro, ameaçava
dançar nua nas escadarias do Senado.
Attilio a chamava de chantagista, mas ela
dizia que estava apenas cobrando a parte
que lhe surrupiaram da herança paterna.
Dizia que seu banco preferido era o
"Preconceito S.A., de propriedade
dos meus irmãos". Luz se cercava de
amigos homossexuais e de seu principal
parceiro no palco, Domingos Risseto.
Criou o PNB, Partido Naturalista
Brasileiro, e conseguiu isto à custa de
espetáculos gratuitos, seminua, nas
escadarias do Teatro Municipal. Attilio
impediu o registro do partido. Luz
seduziu o ministro da Marinha para
conseguir a cessão de uma ilha para a
sede de sua colônia, a ilha de Tapuama
de Dentro, que tinha dois terços de seus
oito mil metros quadrados formados de
rochas, além de cactos e arbustos secos.
Sentiu-se enganada e com vontade de
desistir, mas isto não era de sua
natureza. "Domingos", gritou do
alto de um rochedo, "não é linda a
nossa Ilha do Sol? A partir da segunda
metade dos anos 50, a Ilha do Sol passou
a ser uma das grandes atrações do Rio
de Janeiro, apesar de não fazer parte
dos roteiros turísticos oficiais.
Várias estrelas do cinema americano
conheceram a ilha: Errol Flynn, Lana
Turner, Ava Gardner, Tyrone Powel, César
Romero, Glenn Ford, Brigitte Bardot e
Steve MacQueen, que encerrou sua
temporada de uma semana na ilha depois de
acordar com uma das jibóias de Luz sobre
seu peito. Em 1959, a loiríssima Jayne
Mansfield e seu marido aportaram na ilha,
mas foram proibidos de descer pois Jayne
não queria ficar nua. Nos anos 60 Luz
passou a viver na e para a Ilha do Sol.
Suas reservas financeiras foram
terminando, a idade foi chegando e o mito
começou a desaparecer. Seus amantes já
não eram homens influentes e ricos.
Envolveu-se com Júlio, um pescador
musculoso e analfabeto, com quem manteve
uma relação de muitos meses. Para que
ele fosse vê-la diariamente, sustentava
sua família em Paquetá. Seu último
amor foi o guarda portuário Hélio Luís
da Costa. Casado e com dois filhos,
mandava o dinheiro de Luz para casa,
enquanto passava suas folgas na ilha. Os
amigos quiseram alertá-la para um
possível perigo do envolvimento com
pessoas "deste nível". Ela
respondia que não se preocupassem e
arrematava: "Eu sou uma Luz que não
se apaga". Em 19 de Julho de 1967 os
irmãos Alfredo Teixeira Dias e Mozart
"Gaguinho" Dias armaram uma
emboscada para Luz del Fuego. As ações
criminosas de Mozart haviam sido
apontadas à polícia por Luz e ele
queria se vingar. Atraiu Luz ao seu barco
e a matou. Fez o mesmo com o caseiro
Edgar. O crime só foi desvendado duas
semanas depois, a partir do depoimento
que um coveiro deu aos jornalistas Mauro
Dias, do jornal O Dia e Mauro Costa, do
jornal Última Hora. Alfredo foi preso e
confessou a participação nas mortes. Os
corpos foram resgatados no dia primeiro
de agosto. Gaguinho escapou de forma
espetacular, trocando balas com a
polícia durante quinze dias. Somente
depois de ter matado um cabo foi preso. A
morte de Luz del Fuego poderia não
importar à polícia, mas a de um colega
militar, em plena ditadura, era algo
imperdoável. Gaguinho foi preso e, junto
com o irmão, condenado à pena máxima.
Cumpriu sua pena no manicômio
judiciário do Rio de Janeiro. Alfredo
converteu-se a uma igreja evangélica e
buscou o arrependimento e o perdão
através de uma missionária de nome
Dora. Ditou a um colega de cela os
detalhes de seus crimes e chamou o relato
de A Tragédia da Ilha do Sol.
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