Safo, versos imortais
Safo, a maior poetisa lírica da Antigüidade é,
provavelmente, também a primeira mulher a fazer
poesia importante na história da cultura
ocidental. Nasceu na ilha grega de Lesbos, por
volta do ano de 612 a.C.
Pouco se sabe ao certo sobre esta mulher
notável. Alguns a têm imaginado de uma beleza
escultórica exuberante. Outros, como não muito
bonita. Mas todos concordam que possuía um
atrativo pessoal formidável e que, com seus
belos olhos pretos, poderia até domar feras!
Não é só esta, entretanto, a razão de sua
fama. Filha de família rica, deixou cedo sua
pequena cidade natal de Eresso, próxima à
capital de Lesbos, Mitilene, onde estudou dança,
retórica e poética, o que era, então,
permitido só a mulheres da aristocracia. Mesmo
de origem nobre, a bem pouco podia aspirar uma
mulher nessa época fora dos trabalhos
domésticos rotineiros. Mas Safo... era Safo! Uma
mulher de fogo! Muito jovem já possuía grande
notoriedade devido mais a seus encantos pessoais
do que à sua arte. Ela mesma dizia ter
"cabecinha oca" e "coração
infantil", tinha uma conduta libertada de
preconceitos e inibições.
Nessa época, Lesbos era governada pelo ditador
Pítaco (o mesmo que seria depois incluído na
lista dos Sete Sábios da Grécia). Safo, acusada
de participar de uma conjuração contra o
ditador, acabou sendo exilada na cidade de Pirra.
A acusação foi, provavelmente, devido mais à
moralidade de Pítaco (característica bastante
comum entre os ditadores) do que à política,
pois, de fato, Safo nunca dedicou-se à
política. Nessa época de juventude, brilhava em
Lesbos o jovem poeta Alceu, que pretendeu namorar
Safo, sem sucesso. Por que não? Naturalmente
essas coisas não têm explicação, mas poetisas
não se casam com poetas. Fez-se famosa a
resposta de Safo à carta amorosa de Alceu, em
que este lamentava-se de que o pudor não lhe
permitia dizer o que sentia: "Se tuas
intenções, Alceu, fossem puras e nobres, e tua
fala capaz de exprimi-las, o pudor não seria
bastante a reprimi-las". Mas as falas sobre
pudor, tanto de Alceu como de Safo são
completamente hipócritas, pura literatura
destinada ao público: nem Safo nem Alceu
possuíam o menor recato!
Também Alceu foi exilado por Pítaco junto com
muitos outros patrícios. Na sua geração, ele
teria sido o maior poeta não fosse pela sua
contemporânea Safo.
Ao seu retorno de Pirra, Safo não demorou a ser
exilada de novo, desta vez na Sicília. Ali
conheceu um riquíssimo industrial e, como as
atuais divas se casam com milionários, Safo
casou-se com ele. Este poderoso industrial
cumpriu duplamente seus deveres de esposo com
Safo, dando-lhe uma filha e, pouco depois,
deixando-a viúva e rica.
Na sua volta a Lesbos, Safo diria:
"necessito do luxo como do sol." Mas
não permaneceu muito tempo na ociosidade e
fundou um colégio para meninas da alta sociedade
de Mitilene. Ali as instruía em música, poesia
e dança, e as chamava de heteras, ou melhor,
hetairas, que em grego significa companheiras.
Ao que parece, Safo era incomparável e inspirada
mestra. Mas também inspirava amor às hetairas e
aí Safo era grande mestra. Começaram então os
boatos na cidade sobre atos e costumes adotados
na grande escola. Sua hetaira favorita, chamada
Átis, foi a primeira a ser tirada, iradamente,
por seus pais. Tudo se desfez rapidamente e a
escola acabou. Para Safo, esse foi um terrível
golpe. Sobretudo a perda de Átis, por quem
sentia paixão irrefreável. O que foi uma
desgraça para Safo foi a faísca inicial que
sublimou a sua poesia. Compôs o "Adeus a
Átis", considerada até hoje como um dos
mais perfeitos versos líricos de todos os
tempos, que através dos séculos foi modelo de
estilo pela singeleza e sobriedade da forma.
Expressões originais de Safo, que chamou Átis
de "doce e amargo tormento", foram
usadas depois por poetas e namorados através dos
séculos.
Segundo a lenda recolhida por Ovídio, na idade
madura, Safo voltou a amar os homens. Existem aí
duas versões, numa, apaixonada por um marinheiro
chamado Faon, que não lhe correspondeu,
suicidou-se pulando de um rochedo de Leuca. Na
outra, Safo serenamente resignada com a sua sorte
- segundo manuscrito achado no Egito - recusa um
pedido de casamento: "Se meu peito ainda
pudesse dar leite e meu ventre frutificasse, iria
sem temor para um novo tálamo. Mas o tempo já
gravou demasiadas rugas sobre minha pele e o amor
já não me alcança mais com o açoite de suas
deliciosas penas."
A moralidade e a hipocrisia têm condenado Safo
durante 26 séculos. No século XI, teve a sua
maior condenação: toda a sua obra, contida em
nove volumes, foi queimada pela Igreja... Só em
fins do século XIX dois arqueólogos ingleses
descobriram, por acaso, em Oxorinco, sarcófagos
envoltos em tiras de pergaminho, numa das quais
eram legíveis uns seiscentos versos de Safo.
Isso é tudo o que restou dela. Pouco, mas o
bastante para confirmar o veredicto dos antigos:
Safo foi a maior poetisa lírica da Antigüidade.
Tinha razão Platão quando ensinou: "Dizem
que há nove musas, que falta de memória!
Esqueceram a décima, Safo de Lesbos." E
também tinha razão Sólon (que não era
apreciador de poesia, talvez por ser a única
atividade do espírito que não conseguiu
dominar) quando, depois de ouvir seu neto recitar
uma poesia de Safo, exclamou: "Agora poderei
morrer em paz!"
Numa linha imortal que sobreviveu ao fogo da
Igreja e aos séculos que tudo corroem, Safo
disse: "Irremediavelmente, como à noite
estrelada segue a rosada aurora, a morte segue
todo o ser vivo até que finalmente o
alcança..." E depois veio o silêncio, mas,
nem o fogo, nem os séculos conseguiram apagar
sua voz, nem esquecer seu nome: Safo, a divina
hetaira!
Algumas mostras da poesia de Safo:
A Átis
tradução de Décio Pignatari
Não minto: eu me queria morta.
Deixava-me, desfeita em lágrimas:
"Mas, ah, que triste a nossa sina!
Eu vou contra a vontade, juro,
Safo". "Seja feliz", eu disse,
"E lembre-se de quanto a quero.
Ou já esqueceu? Pois vou lembrar-lhe
Os nossos momentos de amor.
Quantas grinaldas, no seu colo,
Rosas, violetas, açafrão
Trançamos juntas! Multiflores
Colares atei para o tenro
Pescoço de Átis; os perfumes
Nos cabelos, os óleos raros
Da sua pele em minha pele!
[...]
Cama macia, o amor nascia
De sua beleza, e eu matava
A sua sede" [...}
Cai a lua, caem as plêiades e
É meia-noite, o tempo passa e
Eu só, aqui deitada, desejante.
Adolescência, adolescência,
Você se vai, aonde vai?
Não volto mais para você,
Para você volto mais não.
(31 Poetas, 214 Poemas. Sao Paulo: Companhia das
Letras, 1996)
A uma mulher amada
Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.
Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.
Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala... eu quase morro... eu
tremo.
(fragmentos de um poema)
Tradução de Joaquim Fontes
"Parece-me igual aos deuses
ser aquele homem que, à sua frente sentado,
de perto, doces palavras, inclinando o rosto,
escuta,
e quando te ris, provocando o desejo; isso, eu
juro,
me faz com pavor bater o coração no peito;
eu te vejo um instante apenas e as palavras
todas me abandonam;
a língua se parte; debaixo da minha pele,
no mesmo instante, corre um fogo sutil;
meus olhos me vêem; zumbem
meus ouvidos
um frio suor me recobre, um frêmito me apodera
do corpo todo, mais verde que
as ervas
eu fico
e que já estou morta
parece (...)
Mas (...)".
(Eros, Tecelão de Mitos. São Paulo: Estação
Liberdade, 1991)
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