O Meu Guri
Chico Buarque de Holanda
Quando, seu moço, nasceu meu rebento,
Não era o momento dele rebentar,
Já foi nascendo com cara de fome,
e eu não tinha nem nome prá lhe dar,
Como fui levando não sei lhe explicar,
fui assim levando êle a me levar,
e na sua meninice êle um dia me disse,
que chegava lá, olha aí,
olha aí,
ai o meu guri, olha aí,
olha aí é o meu guri,
e êle chega.
Chega suado e veloz do batente,
e traz sempre um presente prá me encabular,
tanta corrente de ouro, seu moço,
que haja pescoço prá enfiar,
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro,
chave, caderneta, terço e patuá,
um lenço e uma penca de documento,
prá finalmente eu me identificar, olha aí,
olha aí,
ai o meu guri, olha aí,
olha aí é o meu guri,
e êle chega.
Chega no morro com o carregamento,
pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador,
Rezo prá êle chegar cá no alto,
essa onda de assalto tá um horror,
Eu consolo êle, êle me consola,
boto êle no coloprá êle me ninar,
De repente acordo, olho pro lado,
e o danado já foi trabalhar, olha aí,
olha aí,
ai o meu guri, olha aí,
olha aí é o meu guri,
e êle chega.
Chega estampado, manchete, retrato,
com venda nos olhos, legenda e as iniciais,
Eu não entendo essa gente, seu moço,
fazendo alvoroço demais,
O guri no mato, acho que tá rindo,
acho que tá lindo de papo pro ar,
Desde o começo eu não disse, seu moço?
êle disse que chegava lá, olha aí,
olha aí,
ai o meu guri, olha aí,
olha aí é o meu guri...
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